A gangorra dos times e a loucura do calendário

A loucura do calendário do futebol brasileiro segue firme e forte em 2021. E proporciona uma gangorra de emoções e de ‘análises miojo’, principalmente no futebol paulista – um cenário que não permite ter qualquer avaliação razoável sobre os trabalhos dos treinadores.

Vamos ao exemplo deste homem da foto acima. Vagner Mancini comandou o Corinthians em duas partidas nesta semana. Na primeira, fez 4 a 1 na Inter de Limeira pelas quartas de final do Paulistão e foi muito elogiado. No segundo jogo, tomou um baile de 4 a 0 do Peñarol e muitos agora querem a sua cabeça.

Em oito dias, o Corinthians entrou em campo quatro vezes (um jogo a cada dois dias). Como fazer uma análise razoável neste contexto? Ainda mais com o elenco como o do Timão, que já teria dificuldades para jogar em uma competição (imagine em dois torneios simultâneos).

O Santos é outro exemplo que comprova a insanidade do calendário. O clube conseguiu sair vivo de uma sequência igual a do Corinthians – com o agravante de que o Peixe decidiu não poupar jogadores nestes jogos. Por sair vivo, leiam não ter sido rebaixado no Paulistão e ainda estar na briga pela próxima fase da Libertadores. Mas é sempre bom lembrar que uma série semelhante custou o pedido de demissão de Ariel Holan.

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Outro ponto importante: o calendário está tão insano que a eliminação na primeira fase do Paulistão foi comemorada por muitos santistas (lista em que eu me encontro), pois pelo menos agora o Santos terá um pouco de tempo para treinar para a Libertadores e o início do Brasileirão.

Até o Palmeiras, atual campeão da Libertadores e da Copa do Brasil, foi alvo de muros pichados como protesto dos torcedores após as perdas dos títulos da Supercopa do Brasil e da Recopa. A tática de usar os reservas no Paulistão quase custou a eliminação precoce do Verdão na primeira fase, e fez alguns colegas da imprensa cravarem que a estratégia havia fracassado. Curioso em saber qual será a opinião dos mesmos se o Alviverde for campeão paulista mais uma vez…

O único entre os grandes paulistas que até agora passou ileso pela gangorra de resultados causada pelo calendário insano foi o São Paulo. Mas o Tricolor adotou uma estratégia fora do usual (e ao meu ver, acertada) de poupar na Libertadores para jogar as quartas do Paulistão. E se o time for eliminado? O bom trabalho do Crespo passará a ser questionado? De nada valerá a sequência de DOZE jogos sem perder na temporada?

Pelo jeito, no final da temporada 2021, todos nós teremos que passar por uma sessão intensa de análise…com um (a) terapeuta!

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Comandar um clube no Brasil virou uma verdadeira roleta russa para os técnicos estrangeiros. Você nunca sabe de onde vai vir a bala que vai decretar a interrupção do seu trabalho.

Abel Ferreira, Hernan Crespo, Ariel Holán…cada um, da sua maneira, descobriu (ou vai descobrir) o quanto é aleatório lidar com o comando técnico em um país que tem um calendário insano ou desconhecido – escrevo estas linhas às 19h26 de uma sexta-feira, sendo que Corinthians e São Paulo irão se enfrentar no domingo ainda sem saber o horário da partida (atualização: jogo será às 22h15).

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Falando sobre a situação dos treinadores em si. Abel Ferreira teve um início meteórico no Palmeiras e já está marcado na história por ter conquistado a “obsessão” Libertadores e a Copa do Brasil no mesmo ano. Mas passou a ser questionado por perder nos pênaltis a Supercopa do Brasil e a Recopa Sul-Americana (!!!), e deve sofrer ainda mais pressão com a iminente eliminação do Paulistão – ainda que esteja fazendo uma campanha irrepreensível na Libertadores 2021.

Tenho certeza que se eu comentasse para um amigo estrangeiro, que não acompanha o futebol brasileiro, que um time campeão da Libertadores teve os muros pichados dois meses depois, ele diria, no mínimo, que estamos malucos – no que estaria coberto de razão.

O caso de Ariel Holan, a meu ver, é emblemático para ilustrar como funciona a engrenagem do futebol brasileiro. Ele chegou com um contrato de três anos para comandar o Santos vice-campeão da Libertadores, mas sem jogadores importantes daquela conquista (Lucas Veríssimo e Diego Pituca).

No meio do caminho, Holan se viu numa sequência de quatro jogos em sete dias contra adversários da importância de Corinthians e Boca Juniors. Para piorar, o Santos teve lesões importantes como a de Sandry, jogadores fora de ritmo como Marinho e Kaio Jorge e a venda de Soteldo para a MLS. Mesmo assim, alguns torcedores soltaram rojões na frente da sua casa para intimidá-lo. Resultado: acabou pedindo o boné.

Hernan Crespo, por sua vez, enfrenta águas calmas. Engatou uma sequência de oito vitórias seguidas, mesmo com calendário insano, e conta com o apoio da torcida e uma parte considerável da mídia esportiva. Mas quanto tempo vai durar esta lua de mel se ela não for traduzida em títulos? Não duvido que uma derrota contra o Corinthians, que não mudaria em nada na vida do São Paulo, já não seria suficiente para trazer a desconfiança de volta.

Com raríssimas exceções, trazer treinador estrangeiro significa (ria) ter paciência. Futebol não é uma máquina de refrigerante que você coloca moeda nela e tira a sua Coca-Cola na hora. Futebol exige um tempo para que o trabalho surta efeito. Quando se trata de um técnico de fora, ainda existe o período de adaptação a um novo país. Mas o futebol brasileiro não tolera nada disso. Ou ganha, ou muda.

Quem será o próximo a se arriscar nesta roleta russa?

Dinheiro não pode subverter a lógica do futebol

Fracassou (ao menos por enquanto) a ideia dos ditos superclubes da Europa de criar uma Superliga, competição que seria organizada à revelia da Uefa e da Fifa. Foi uma bomba que caiu sobre o mundo do futebol e que teve dois dias de duração até ser contida. Mas, na visão do autor destas linhas, já deixou uma lição: o dinheiro não pode subverter a lógica do futebol.

O que quero dizer com isso? Que o objetivo principal destes 12 clubes (Milan, Arsenal, Atlético de Madrid, Chelsea, Barcelona, Inter de Milão, Juventus, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Real Madrid e Tottenham), que é gerar mais dinheiro com os direitos de transmissão de um campeonato deste tamanho, pode ser até válido, mas despreza um valor fundamental do esporte: a competição que ainda premia o mérito.

Tem outra coisa: a Superliga parte de um pressuposto muito errado. O que garante que estes são os 12 maiores clubes do mundo? Dinheiro? Só se for. Títulos? Há quanto tempo Tottenham não ganha um título relevante? Quantas Champions League foram conquistadas pelo Arsenal?

Outra questão: os mentores da Superliga tiveram, a meu ver, uma postura muito atropelada em relação ao ‘golpe’ que eles tentaram dar na Uefa e na Fifa. Tentaram, na famosa canetada, empurrar uma decisão sem qualquer tipo de diálogo com alguns players importantíssimos do futebol: os jogadores, treinadores e os torcedores.

Não foi à toa que a comunidade do futebol reagiu de forma rápida (e bem negativa). Vozes importantes do futebol protestaram, como Marcelo Bielsa, Jurgen Klopp e Pep Guardiola. Craques da bola, como Kevin De Bruyne, e ex-jogadores relevantes, como Gary Neville, foram vozes ativas no combate a esta iniciativa. A Heineken, patrocinadora oficial da Champions, se posicionou de forma dura contra a Superliga.

Os torcedores também viram neste episódio como uma oportunidade de se manifestarem de forma contundente por mudanças no futebol. Os fãs do Chelsea foram para a rua protestar na última terça. Petr Cech, ex-goleiro e atual diretor do Chelsea, precisou descer do veículo para acalmá-los. Até torcedores de rivais históricos como Manchester United e Liverpool se uniram na causa – o que não deixa de ser um feito da Superliga.

O que os jovens querem?

Presidente da Superliga europeia e do Real Madrid, Florentino Perez usou uma justificativa bem equivocada para referendar a nova competição: “Os jovens já não têm interesse por futebol. Por que não? Porque existem muitos jogos de baixa qualidade e não lhes interessa, têm outras plataformas para se distraírem”, disse o mandatário, para depois complementar com algo que merece uma reflexão maior.

“O futebol tem que evoluir, como empresas, pessoas, mentalidades. As redes mudaram a forma como se comportam e o futebol tem que mudar e se adaptar aos tempos em que vivemos. O futebol estava perdendo o interesse, o público está diminuindo”.

Sim, as redes mudaram a forma como os fãs se comportam. Sim, o e-sports e os games como um todo são adversários cada vez mais forte do futebol para prender a atenção dos jovens. Mas não é criando uma competição em que não se premia o mérito que vai resolver este problema. Não é banalizando os superclássicos regionais que vai atrair um interesse maior desta faixa etária. Se fosse, todo Real Madrid x Liverpool na fase de grupos da Champions League daria uma audiência acima da média…

A nova geração quer experiência aliada ao futebol. Quer receber um autógrafo personalizado em casa do Lionel Messi só por ter comprado o pacote para ver Champions League em casa. Quer poder acompanhar Barcelona x Milan jogando seu game favorito na mesma plataforma, ou podendo convidar os amigos para uma Watch Party. Quer torcer para um time e saber que ele foi construindo degrau a degrau o seu mérito para ser campeão – assim como ele aprendeu que seu pai torcia. A guerra entre os clubes e Fifa/Uefa está longe de acabar. Mas o dinheiro que está em jogo não pode subverter esta lógica do prazer proporcionado pelo futebol.

Vale ler também sobre a Superliga:

Bruno Maia: Polêmica da Superliga nos questiona se amamos um esporte obsoleto

Carlos Eduardo Mansur: Na Superliga elitizada, o que fazer quando um superclube não parecer mais tão super?

Mário Marra: Os torcedores do Liverpool estão envergonhados

Financial Times (tradução na Folha): Derrota da Superliga foi mais choque de cartéis do que luta de Davi versus Golias

Cuidem do produto futebol

Quando o produto futebol vai ser melhor gerido no Brasil? Quando as federações e clubes vão tratar o esporte como um espetáculo que precisa ser proporcionado da melhor maneira possível para quem assiste? Será que nutrir esse tipo de esperança me faz ser uma pessoa que acredita em conto de fadas?

Quando olho para o futebol brasileiro, tenho dois sentimentos díspares: ao mesmo tempo que espetáculos como o do último domingo entre Flamengo e Palmeiras me enchem os olhos pela qualidade demonstrada, vejo a Federação Paulista fazendo de tudo para enfiar ‘goela abaixo’ a volta do Estadual mesmo com mais de três mil mortes por covid por dia no Brasil. 

Depois que o Governo Doria e o Ministério Público enfim cederam, a mesma Federação não pensou duas vezes em obrigar clubes como o São Paulo a uma maratona de quatro jogos em sete dias. Para quem pensa que isso é um ‘privilégio’ do nosso Estado, na temporada passada o Palmeiras passou por uma maratona por ter montado um time em condições de disputar todas as competições (no caso, Paulistão, Libertadores, Copa do Brasil). 

Como cobrar desempenho dos jogadores neste contexto? Como esperar um nível técnico alto em toda partida? O Brasil é o único país dos grandes centros do futebol que parece que pune quem monta time bom com maratona de jogos. Acha que estou brincando? Então veja o que o vice-presidente da CBF, Francisco Noveletto, falou sobre o Palmeiras, vencedor da Libertadores 2020.

“Quem mandou ele ganhar tudo? Vê se o presidente do Palmeiras ou algum dirigente abre mão. Ele não é obrigado a jogar. Ele quer ganhar. Ele pode abrir mão. Ele não é obrigado. Mas, não. Ele precisa fazer caixa, ganhar prêmio da CBF, ganhar prêmio de quem patrocina o campeonato. A CBF vai pagar 60 milhões, 90 para a Copa do Brasil. Libertadores, 20 milhões de dólares. É tudo assim. Então, eles não são obrigados. Quem mandou ele ganhar?  Vamos ganhar só metade para não ter esse problema”.

Quando falo sobre o desprezo na gestão do produto futebol, falo sobre os mais variados aspectos. Não se discute uma adequação do calendário. A consequência disso é a banalização dos clássicos e dos jogos na primeira fase dos Estaduais. Quem aguenta ver tanta partida desimportante sempre?

Sobre os jogadores…alguém parece preocupado com o risco de contágio dos atletas? O risco dos membros da delegação? Digo mais…nós da imprensa esportiva falhamos ao não tratar as consequências físicas/psicológicas da covid-19 nos atletas que já contraíram a doença. Simplesmente o tratamos como máquinas. Recuperado da covid? Bora cobrar o mesmo tipo de desempenho que cobrávamos antes.

Ainda sobre as competições: que tipo de ações extra-campo estão sendo feitas para os torcedores que não podem mais ver o seu clube no estádio? Outro dia estava conferindo a temporada 3 da série Drive to Survive, do Netflix, e me surpreendi com uma iniciativa simples, mas que acredito ser efetiva para a relação entre ídolos e fãs: quando os pilotos entravam no autódromo, eles eram obrigados a parar em um totem para conversar virtualmente com fãs pré-selecionados pela organização. Na temporada passada da NBA, aparecia uma imagem virtual dos torcedores acompanhando de casa em tempo real a partida. Simples? Talvez. Mas muito melhor/mais sofisticado do que os bonecos com as fotos dos fãs que os clubes brasileiros proporcionaram para quem comprasse um ingresso virtual.

Na última sexta (9), o meu colega Rodrigo Mattos informou em sua coluna no UOL que os grandes clubes brasileiros perderam 270 mil sócios-torcedores desde o início da pandemia do coronavirus. Coincidência? Pra mim, é um sintoma claro de que falta ideia criativa para reter o fã de futebol.

Menos jogos. Mais planejamento. Mais respeito aos atletas. Mais carinho com o torcedor. Mais criatividade para reter o fã do futebol brasileiro. 

Cuidem do produto futebol brasileiro. Não é pedir muito.

O Brasil precisa acertar as contas com o bolsonarismo

Ameaça de golpe, tensão no ar, democracia testada dia sim, dia também…não bastasse sermos assolados pela pandemia do coronavírus, amplificada por uma falta de comando do Governo Federal, o bolsonarismo nos impõe viver também com o medo de revivermos a Ditadura Militar.

Bolsonaro pode até ser derrotado nas urnas em 2022, mas o bolsonarismo vai existir e ter certa relevância por muito tempo. Não só como movimento político, mas também como social. E o Brasil precisa acertar as contas com ele.

A eleição de Jair Messias Bolsonaro em 2018 legitimou o ignorante a ter orgulho de ser ignorante, o xenófobo a ter orgulho de ser xenófobo, o machista a ter orgulho de ser machista. Em resumo: todas aquelas pessoas que ficaram por muito tempo “no seu canto” por receio do surrado conceito do “politicamente correto”, agora saíram da toca e manifestam o seu pior lado sem nenhum medo de represália.

Como bem observou o amigo Allan Simon, o governo Bolsonaro também virou abrigo para os ressentidos, pois “conseguiu capturar todos os que fracassaram de alguma forma em suas áreas e passaram a ter ódio do sistema como um todo”.

E por que o Brasil precisa acertar as contas com esse seu lado? Oras, pois o bolsonarismo escancara a falácia de que somos um país de gente “humilde e hospitaleira”, um povo sempre “alegre e festeiro”, entre outros rótulos que gostamos de colocar em nós mesmos.

Quer fazer um teste? Digite “Brasil país que mais mata” no google. Fiz isso e colhi alguns resultados:

“O Brasil é o País que mais mata por arma de fogo no mundo”

Feminicídio – Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo

Pelo 12º ano consecutivo, Brasil é país que mais mata transexuais no mundo

Relatório mostra que o Brasil é o terceiro país que mais mata ambientalistas

Este é um país hospitaleiro? País que trata bem o seu povo e os turistas? Então…

Nestes pouco mais de dois anos como presidente do Brasil, Bolsonaro mostrou por A + B + C + D que é um desastre na função. Não trabalha, não comanda, não escala time competente. Seus subordinados, aliás, são especialistas em destruição. Estão destruindo o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Educação (só pra ficar em três exemplos).

Mas Bolsonaro foi até agora muito eficiente em uma tarefa: a de fidelizar o seu público. Hoje o presidente tem pelo menos 20% do Brasil do seu lado, o que lhe deixaria muito perto de um segundo turno (isso se tivermos democracia até lá). Pra quem ficou três décadas como Deputado Federal e não fez NADA de relevante politicamente tanto na Câmara quanto na Presidência, não deixa de ser um feito!

Qual é a saída para escaparmos deste buraco? Acho que só a educação salva. Um país mais instruídos forma pessoas com consciência cidadã e preparadas para, por exemplo, exercer melhor o seu direito de voto.

Mas independente disto, acredito que o Brasil precisa acertar suas contas com a elite do atraso, que ajuda a perpetuar o país desigual que somos e foi uma das principais fiadoras da chegada do bolsonarismo ao poder “para acabar com a corrupção do PT” (ps: que bom que a corrupção acabou agora, não é mesmo?).

Hoje vemos muitos dizendo publicamente que estão arrependidos em ter votado em Jair Bolsonaro em 2018. Mas no segundo turno de 2022, num hipotético Bolsonaro x Lula, quantos destes não repetiriam o voto no atual presidente?

Não sejamos hipócritas: pra elite do atraso, o que importa é ver a esquerda longe do poder. Mesmo que pra isso seja necessário mais quatro anos de Bolsonaro.

E é com esta elite do atraso, boa parte dela alinhada com os valores do bolsonarismo, que o Brasil precisa acertar suas contas.

O importante é a vaga!

Foi duro, difícil, suado, mas a vaga veio. O Santos empatou com o Deportivo Lara por 1 a 1 e avançou para a terceira fase da Libertadores por ter vencido por 2 a 1 o primeiro jogo na Vila Belmiro.

O título deste post, O importante é a vaga, pode passar a impressão errada de que o autor destas linhas entrou para o time dos resultadistas de plantão. O que estou tentando é valorizar o contexto: é uma equipe em formação, repleta de atletas jovens, com técnico novo, inúmeros desfalques e que ainda foi acometido por um problema estomacal de última hora pouco antes da bola rolar.

O jogo em si não foi bom. O Santos teve dificuldades de sair da forte marcação do Deportivo Lara, que mais uma vez jogou com cinco defensores. Teve mais posse (66%), conseguiu chutar mais no gol (3 a 2), mas faltou ser mais assertivo na hora de concluir.

O ponto que merece atenção especial, como o próprio técnico Ariel Holan reconheceu depois da partida, é a falha de marcação nas bolas paradas, que voltou a acontecer no duelo da Venezuela assim como havia ocorrido na Vila. Ciente da deficiência do Santos, o Deportivo Lara só ameaçou desta forma, e ficou perto de levar a partida para a disputa de pênaltis.

O registro positivo fica para o primeiro gol de falta de Soteldo com a camisa do Santos (um golaço). O venezuelano foi premiado pelos treinos diários para se aperfeiçoar neste quesito. Em duelos equilibrados como esse, a bola parada se torna um diferencial que pode ajudar muito o Peixe na temporada.

O empate de ontem rendeu R$ 3 milhões nos cofres combalidos do Santos e garantiu o clube na disputa de uma competição continental deste ano – mesmo se for eliminado por San Lorenzo ou Universidad de Chile na próxima fase, o Peixe vai disputar a Copa Sul-Americana. E o melhor de tudo: deu fôlego para Ariel Holan seguir o seu trabalho de montagem da equipe longe das cornetas da opinião pública.

Até agora, Holan tem quatro jogos no comando do Santos: duas vitórias, um empate e uma difícil derrota para o São Paulo no clássico. Mas o que vale é que, mesmo com pouco tempo de trabalho, já existe uma ideia clara em campo do que o treinador pensa, e muito espaço para os jovens se desenvolverem.

Que o torcedor tenha paciência com as oscilações, e entenda que é um trabalho que vai render frutos a médio prazo.

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Como é bom ter base!

O Santos conquistou uma importante vitória nesta terça-feira contra o Deportivo Lara por 2 a 1, saindo na frente na disputa por uma vaga na terceira fase da Libertadores. Vinicius Balieiro, 21, e Kaiky, 17, marcaram os gols do Peixe na partida, que marcou a primeira vitória do técnico Ariel Holan no comando do clube. Escrevo estas linhas ainda pensando sobre a partida que acabou faz pouco tempo. Mas uma seguinte constatação está clara na minha mente: como é bom ter base!

O primeiro gol do Santos (veja acima) é toda uma jogada construída pelos jovens do Santos: Sandry dá belo passe para Alison, que tenta o cruzamento. Na sobra, Vinicius Balieiro chuta com força.

O segundo gol do Santos (veja acima) coroa a atuação do melhor da partida. O zagueiro Kaiky estreou na Libertadores com a difícil tarefa de substituir Lucas Veríssimo e fez uma partida irrepreensível que foi coroada com um gol de cabeça, após cruzamento de Jean Mota (que havia acabado de entrar).

Ângelo, com apenas 16 anos, fez um primeiro tempo primoroso. Sem sentir o peso da estreia em uma competição continental, ele estava solto na partida e deu trabalho para a defesa do Deportivo Lara enquanto teve pernas. A melhor chance do primeiro tempo foi dele, que cruzou para Marcos Leonardo, 18, obrigar o goleiro venezuelano a fazer uma bela defesa.

A nota negativa fica para a bobeada da defesa do Santos no gol do Deportivo Lara. Luan Peres, Lucas Braga e Vinicius Balieiro bobearam e permitiram aos venezuelanos o empate logo após o primeiro gol santista.

Mas foi um resultado muito bom se levarmos em conta todas as circunstâncias adversas do jogo:

  • Desfalques de nomes importantes (Marinho, Pará, Kaio Jorge e Madson)
  • Novo técnico com menos de uma semana de treinos
  • Derrota por 4 a 0 no clássico contra o São Paulo

Isso significa que a vaga está encaminhada? Nem de longe. Ainda tem muito chão pela frente. Mas já é um (bom) começo.

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Pelé ‘humano’ é o grande legado do documentário

Assisti ao documentário “Pelé” no Netflix e fiquei maravilhado. Não me lembro de ter visto o Rei do Futebol tão ‘humano’. Humano, entre aspas, pois afinal de contas todos somos humanos, não é mesmo? Mas neste filme Edson Arantes do Nascimento se mostrou frágil, vulnerável, hesitante, como poucas vezes apareceu de forma pública.

Logo no início do documentário, Pelé surge em uma sala vazia caminhando com a ajuda de um andador. O Rei do futebol senta em uma cadeira e joga o andador com força para alguém que não aparece na imagem poder pegar.

Foi uma imagem que me chamou muito a atenção – até porque Pelé não tem o costume de aparecer desta forma publicamente. O único momento que me vem à mente em que ele apareceu fragilizado foi em 2017, durante o sorteio dos grupos da Copa do Mundo da Rússia, em que ele posou para imagens de cadeira de rodas.

Outro acerto do documentário é abordar de forma incisiva como o fenômeno Pelé foi explorado pela Ditadura Militar. Pelé hesita ao falar sobre o tema, mas admite o desconforto, principalmente pelo fato de que foi obrigado pela era Médici a disputar a Copa do Mundo de 1970.

O documentário entrevista várias personalidades contemporâneas a Pelé, desde jornalistas como Juca Kfouri e José Trajano a políticos de diferentes espectros ideológicos como Fernando Henrique Cardoso, Delfim Netto e Benedita da Silva e até o cantor Gilberto Gil. 

Destes, o depoimento que mais marcante foi o do Juca, que falou algo que me fez pensar. “Muitos comparam o Pelé ao Muhammad Ali (voz ativa a favor dos direitos humanos nos Estados Unidos). O Ali sabia que nunca iriam atentar contra a sua vida. O Pelé não tinha essa certeza de que, se protestasse contra a Ditadura, não seria morto por ela”.

Pelé sempre se posicionou como alguém que tinha uma ascendência ‘apenas’ restrita ao futebol. Lamento que ele não tenha percebido o seu tamanho e o quanto seria importante para o Brasil que ele tivesse sido mais incisivo contra a Ditadura Militar. Lamento, mas não condeno, pois só quem viveu aquele momento é que tinha uma ideia real dos riscos de tomar uma atitude como essa.

Mas deixo aqui um questionamento: que base educacional Pelé tinha para formar esta consciência política e cidadã? Sei que ele se formou em Educação Física, mas o fez quando a carreira estava consolidada. 

Meu ponto é um só: desde aquela época até hoje, são pouquíssimos os jogadores de futebol que conseguem completar os estudos. Eles despontam como craques cada vez mais cedo, ficam milionários e não têm tempo/interesse de conciliar o campo com a escola. Resultado: acabam sendo induzidos a viverem alheios aos problemas do país/mundo. Como se só o futebol e suas vidas pessoais lhes importasse.

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Claro que estou generalizando, e toda generalização induz ao erro. Mas por que não pensamos em políticas públicas/esportivas que permitam aos nossos jovens futebolistas conciliarem esporte com a escola? Com a palavra, políticos e gestores do futebol… 

O único ponto do documentário que eu lamentei foi o pouco tempo da cena do churrasco entre Pelé, Mengálvio, Lima, Pepe e Dorval, na casa do Rei do futebol no Guarujá. Cinco dos maiores jogadores do mundo na década de 60 conversando de forma nostálgica sobre o passado e o que fizeram naquele timaço do Santos. Pelé ainda brinca no fim: “Não comam muito que tem jogo amanhã”.

É por essas cenas tão simbólicas, que renderiam um filme por si só, que o futebol é tão apaixonante. 

Outros textos sobre o documentário do Pelé que eu recomendo bastante:

Paulo Júnior:
Pelé reconhece o mito, mas é na política que se interessa pelo homem

O Gabriel Carneiro produziu no UOL Esporte um bom material sobre o documentário:

“Não posso mudar a lei”, diz Pelé sobre crítica por posicionamento político

Netflix lança trailer de documentário que promete novo olhar sobre Pelé

LEIA TAMBÉM:

Homenagem a meu pai que escrevi no UOL Esporte:

O dia em que meu pai marcou o Pelé e foi parar no cinema

É a hora dos jovens no Santos

Santista, não perca o foco: Paulistão é a hora perfeita para os jovens do Santos mostrarem o seu valor! E não se engane com o (s) resultado (s): há muito o que comemorar mesmo com dois empates contra Santo André e Ferroviária.

O que comemorar? Vamos lá:

  • Como Lucas Musetti antecipou, os 19 jogadores do Santos que foram convocados para o duelo contra a Ferroviária ou são (ou foram) da base.
  • Você conhecia Gabriel Pirani? Kevin Malthus? Allanzinho? Kaiky? Pois é, eu confesso que não (minto, sabia da existência pois jogo com o Santos no Football Manager). Pois esses nomes, em pouco tempo, mostraram o seu valor.
  • Enquanto vários times da Série A estão emendando temporada, sem descanso algum, o Santos pôde dar folga a boa parte do seu elenco principal.

Mas o principal a comemorar é: em tempo de vacas magras, de dívidas exorbitantes, proibição para contratar, poder testar a base em jogos que não valem de nada é muito importante para o Santos – e principalmente para Ariel Holan, que mais uma vez pôde ver de perto com quem pode contar.

Os dois jogos em si não foram de encher os olhos. O Santos sentiu muitas dificuldades em boa parte deste tempo, principalmente contra a Ferroviária, que é um time bem montado e que tinha mais tempo de treino.

Mas para os resultadistas de plantão, sempre bom ressaltar: este time, desentrosado, não perdeu nenhuma das partidas que disputou.

Agora vem o São Paulo pela frente. Primeiro clássico, estreia do Ariel Holan, rival embalado por uma vitória por 4 a 0 contra a Inter de Limeira…

Santista, não perca o foco: Paulistão é a hora perfeita para os jovens do Santos mostrarem o seu valor!

Deixo aqui a pergunta: você aceitaria deixar de disputar o título paulista se achasse que ele serviria para descansar os jogadores para as competições mais importantes e dar a chamada ‘cancha’ para os atletas oriundos da base?

Minha resposta é sim. Sem pensar!

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Quem sobe e desce no Santos com Ariel Holan?

Luan Peres deve ganhar ainda mais espaço no Santos de Ariel Holan (foto: Ivan Sorti/Santos FC)

O Santos anunciou na última segunda-feira (22) a contratação do técnico Ariel Holan, ex-Universidad Católica, para dirigir a equipe até dezembro de 2023, mesmo período que termina o mandato de Andrés Rueda na presidência. Ouvindo a sua primeira entrevista como treinador do Peixe e lendo materiais produzidos por colegas da imprensa sobre os seus métodos, me arrisco a fazer um exercício de futurologia sobre os jogadores que sobem e os que descem após a sua chegada.

SOBEM

Luan Peres: Holan necessita de zagueiros de explosão, que estejam preparados fisicamente para ajudar na contenção dos contra-ataques adversários. Luan Peres demonstrou – principalmente na final da Libertadores – que pode ser bem útil neste sentido.

Felipe Jonathan: Sua capacidade de gerar amplitude e de apoiar o ataque, como um autêntico ala, deve conquistar o novo treinador do Santos. Sua habilidade pode transformá-lo em um trunfo para triangulações rápidas para gerar superioridade no setor.

Madson: Seu vigor físico pode ser um diferencial, pois Madson teria fôlego para apoiar o ataque e ajudar na retomada defensiva, evitando que os zagueiros fiquem muito expostos aos contra-ataques dos adversários.

Sandry: Sua qualidade no passe será o primordial para garantir a sustentação da fase ofensiva do jogo de posição do técnico Ariel Holán. Vejo que Sandry deverá atuar como um camisa 5, ajudando na ligação defesa e ataque.

DESCEM:

Pará: O lateral completou 35 anos em 2021, e já não tem a mesma explosão física de antes. Além disso, vejo que ele poderá ter dificuldades para abrir o campo e ajudar nas triangulações para gerar superioridade numérica no seu setor.

Luiz Felipe: Vejo Luiz Felipe com muitas dificuldades para se estabelecer no Santos de Holan, pois não tem o vigor físico necessário e, por isso, deverá ficar muito exposto aos contra-ataques rivais.

Alison: Para seguir como titular incontestável com Holan assim como foi com Cuca, Alison terá que aprimorar o seu passe, ou então terá a mesma dificuldade para se estabelecer como teve na passagem do técnico Jorge Sampaoli pelo Santos. Vale lembrar que Sampaoli e Holan são adeptos do jogo de posição.

Lucas Braga: O estilo de jogo de Lucas Braga (ponta que ajuda muito na marcação da defesa, mas não é muito técnico e pode comprometer as ações ofensivas em alguns momentos) provavelmente deverá fazê-lo perder espaço com Holan. Não vejo Lucas Braga sendo efetivo nas triangulações ofensivas (espero estar errado).

Aproveito aqui também para fazer umas considerações iniciais sobre a chegada de Holan:

  • Ariel Holan deve chegar ao Brasil para ver a estreia do Santos no Paulistão contra o Santo André. Amigos do Lance/Diário do Peixe informam que ele deve estrear no banco de reservas na segunda rodada (Ferroviária) ou terceira (São Paulo). Acho arriscado estrear logo em um clássico.
  • É importante que exista a compreensão de que Holan vai se adaptar ao Santos e o Santos vai se adaptar a Holan. Isso leva um tempo. Imprescindível que haja bastante paciência, principalmente nos primeiros jogos, para o trabalho dar certo.
  • Método do Holan significa uma ruptura grande ao modelo do Cuca, mas ao mesmo tempo é uma reaproximação com o jeito Sampaoli de jogar. Por isso, acredito que nomes importantes como Marinho, Soteldo e Sanchez, que foram comandados por Sampaoli, vão ajudar muito no entendimento ao novo modelo de jogo.
  • Holan é conhecido por revelar jovens talentos e trabalhar com o elenco que tem, o que é perfeito para o momento do Santos. Sua predileção por tecnologia e inovação me agradam bastante.
Vale a pena ler a análise do Pedro sobre o trabalho de Holan

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Para saber mais sobre Holan, recomendo a leitura:

Blog do Tales Torraga: ‘Estilo HOLANdês’: Novo técnico do Santos é tido como gênio na Argentina

De estacion en estacion: Ariel Holan fala ao Coaches Voice

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