Mais uma oportunidade perdida

Os jogadores da seleção brasileira tiveram mais uma oportunidade perdida ontem. Não, não me refiro ao campo, pois lá, o Brasil venceu o Paraguai por 2 a 0, derrubou um jejum histórico fora de casa contra o rival e ainda igualou o feito da seleção do tri como o melhor início da história do país nas eliminatórias (seis vitórias em seis jogos). Mas fora do campo…

O manifesto divulgado pelos jogadores da seleção brasileira contra a realização da Copa América é sem sentido e muito contraditório. Alguns trechos chamaram a atenção:

“Por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada tardiamente no Chile ou mesmo no Brasil”. Quais são as razões humanitárias? Pressuponho que eles estão se referindo ao desastre provocado pela covid. Então por que não falar? Medo de desagradar o governo brasileiro que faz uma péssima gestão deste assunto? Outro ponto: culpar a Conmebol me parece o alvo mais fácil para se comprometer menos.

Outro trecho: “É importante frise (sic) que em nenhum momento quisemos tornar esta discussão política”. Oras, a simples existência deste manifesto já torna a discussão política. Política é a atividade desempenhada pelo cidadão quando exerce seus direitos em assuntos públicos através da sua opinião e do seu voto. E os jogadores da seleção brasileira manifestaram opinião sobre um assunto público – a realização ou não da Copa América no país.

“Somos contra a realização da Copa América, mas nunca diremos não à seleção brasileira”. Qual é o crime de não disputar uma competição com pouca relevância no cenário global como a Copa América?

A ideia de um manifesto foi ótima. Mas a execução…

Mas a crítica não é restrita aos jogadores. O técnico Tite prometeu falar de forma mais incisiva sobre a crise na CBF após os jogos das eliminatórias. Mas aparentemente ficou só na promessa – ainda que tenha sido a mesma postura evasiva do treinador que estamos acostumados a ver.

“Não sou hipócrita e não sou alienado. Eu sei que as coisas aconteceram. Mas sei também dar prioridade, que é cuidar do meu trabalho”, escapou o treinador, quando questionado se pensou em pedir demissão em meio aos problemas.

Uma pena…mais uma oportunidade perdida.

Copa América e o vexame coerente do Brasil

Podemos reclamar de tudo sobre a realização da Copa América 2021 no Brasil. Menos de falta de coerência das principais partes envolvidas neste (vergonhoso) projeto:

Conmebol? Precisava desesperadamente de um país que salvasse a realização da competição e os contratos de marketing já firmados. Por isso abraçou a ‘solução Brasil’ sem pensar duas vezes.

Governo brasileiro? O presidente Jair Bolsonaro está sendo coerente com (falta de) projeto para conter a covid-19 no Brasil. Ele não está nem aí para o risco de espalhar o vírus. Não se preocupa com as aglomerações – quer mais é que as mesmas aconteçam e, se possível, sem o uso de máscara. Bolsonaro enxerga o futebol como “ópio do povo”, ou a distração que vai fazer o povo esquecer os problemas que enfrenta na sua gestão (isso te lembra algum período da história do Brasil?).

Foi notável, inclusive, a pró-atividade do governo Jair Bolsonaro em se oferecer como solução para o impasse em que a Conmebol se viu ao serem inviabilizadas tanto Argentina como Colômbia como opções para a realização da Copa América este ano. A rede social (e os opositores) logo ressaltaram esta postura do presidente:

É claro que a realização da Copa América no Brasil se trata de mais um episódio lamentável da gestão do atual governo brasileiro da covid no país. Não é à toa que a terceira onda está batendo na porta, e pode ter o seu ápice inclusive durante a realização da competição. Mas infelizmente, não é algo inesperado. Afinal de contas, que moral tem para dizer que não quer sediar a Copa América um país que tem tanta dificuldade de parar as competições locais nos picos de caso de covid?

Me pergunto uma coisa: até quando os jogadores, que são os maiores protagonistas da festa, vão ficar calados? Eles não percebem o risco que estão correndo?

Palpites para o Brasileirão 2021

Neste sábado, tem início o Campeonato Brasileiro de 2021. Vamos brincar de dar palpites: Digo brincar porque acertar o campeão, hoje, é um tremendo exercício de futurologia, ainda mais em um calendário tão insano e cheio de alternâncias como esse.

Sem mais delongas, vamos aos palpites:

  • Brigam pelo título (não necessariamente nesta ordem): Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG e São Paulo.
  • Brigam por Libertadores (não necessariamente nesta ordem): Grêmio, Inter e Fluminense.
  • Ficam no meio da tabela (não necessariamente nesta ordem): Corinthians, Santos, Bragantino, Ceará, Athletico-PR, América-MG.
  • Lutam para não cair (não necessariamente nesta ordem): Cuiabá, Fortaleza, Bahia, Sport, Chapecoense, Atlético-GO e Juventude.

Acredito que Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG são os principais candidatos ao título, principalmente pelo elenco que possuem. Coloco o São Paulo na mesma lista pois se reforçou bem no mercado e entendeu a filosofia de trabalho do (ótimo) técnico Hernan Crespo.

A dupla Gre-Nal está na zona da Libertadores por motivos distintos: O Grêmio ainda precisa encorpar o seu elenco e deve sofrer com a sequência de jogos em competições simultâneas. Já o Inter ainda passa por um processo de adaptação ao estilo de Miguel Angel Ramirez. O Fluminense completa a lista por ter um time que, se não encanta, é altamente competitivo. Apostaria no Tricolor carioca brigando por uma vaga na Pré-Libertadores.

Por que Corinthians e Santos estão no meio da tabela? Pois ambos os times estão com um trabalho muito no início, e com dificuldades para contratar devido aos (inúmeros) problemas financeiros. Não acho que brigam contra o rebaixamento por possuírem peças que podem fazer a diferença neste momento de aperto.

Fortaleza e Bahia estão entre os que lutam para não cair em um momento de hesitação deste que escreve estas linhas, que poderia ter colocado facilmente ambos os times na zona de meio da tabela.

É importante ressaltar: o Brasileirão é o campeonato mais difícil de dar palpite justamente por duas razões – o longo tempo de duração e o fato de ser a competição mais afetada pelas outras. Quem garante que em dado momento o Flamengo e o Palmeiras (só pra citar dois exemplos) não vão priorizar Libertadores ou Copa do Brasil? Portanto, cabe ressaltar que estes palpites levam em consideração a dedicação dos clubes somente ao Brasileirão.

E aí: concorda comigo? Discorda? Dê os seus palpites!

Título merecido do São Paulo dá tranquilidade para Crespo

O São Paulo foi o merecido campeão paulista de 2021. Título conquistado após uma vitória contra o Palmeiras por 2 a 0 neste domingo (o jogo anterior havia terminado em empate sem gols no Allianz). A conquista premiou o melhor time da competição, e agora dá um pouco mais de tranquilidade para o técnico Hernan Crespo trabalhar.

Por que tranquilidade? Porque o São Paulo não conquistava um título importante desde 2012. Não era campeão paulista desde 2005. Esse tipo de tabu, em um clube gigante, acaba dando proporção grande a qualquer insucesso mínimo.

Vejam um exemplo simples: antes líder do seu grupo na Libertadores, o São Paulo usou reservas na última partida justamente para se preparar melhor para o Paulistão, e perdeu o seu compromisso, o que o jogou para a segunda colocação da chave. Agora vocês imaginam a cobrança que viria se a estratégia – acertada – não gerasse o título desejado?

O São Paulo fez muito bem em dar um valor maior que os seus rivais para este Paulistão. Exatamente porque um clube grande não pode ficar tanto tempo sem conquistar títulos. E agora colhe os louros de um trabalho que, justiça seja feita, começou com Fernando Diniz – o que o próprio Crespo reconheceu em entrevistas passadas.

Sobre o jogo em si, foi mais um duelo muito disputado, que se abriu para o São Paulo depois do gol de Luan após desvio de Felipe Melo. O Palmeiras mostrou neste domingo que teve poucos recursos para sair da boa marcação do Tricolor, que soube aproveitar a chance que teve e marcou o segundo gol com Luciano – e quase fez o terceiro com Gabriel Sara. No final, um título que deu alívio ao torcedor são-paulino e premiou o time que entendeu a filosofia do treinador e colheu resultados muito rápidos de pouco tempo de trabalho.

E o Palmeiras? Apesar de amargar mais um vice-campeonato nesta temporada, o trabalho segue bem feito. É um time que sempre compete muito e cobra caro por cada derrota. Que as cornetas do Allianz Parque poupem Abel e cia e deem tranquilidade para o seguimento da temporada. Porque o Verdão pode (e vai) brigar por títulos em todas as competições que disputar.

A gangorra dos times e a loucura do calendário

A loucura do calendário do futebol brasileiro segue firme e forte em 2021. E proporciona uma gangorra de emoções e de ‘análises miojo’, principalmente no futebol paulista – um cenário que não permite ter qualquer avaliação razoável sobre os trabalhos dos treinadores.

Vamos ao exemplo deste homem da foto acima. Vagner Mancini comandou o Corinthians em duas partidas nesta semana. Na primeira, fez 4 a 1 na Inter de Limeira pelas quartas de final do Paulistão e foi muito elogiado. No segundo jogo, tomou um baile de 4 a 0 do Peñarol e muitos agora querem a sua cabeça.

Em oito dias, o Corinthians entrou em campo quatro vezes (um jogo a cada dois dias). Como fazer uma análise razoável neste contexto? Ainda mais com o elenco como o do Timão, que já teria dificuldades para jogar em uma competição (imagine em dois torneios simultâneos).

O Santos é outro exemplo que comprova a insanidade do calendário. O clube conseguiu sair vivo de uma sequência igual a do Corinthians – com o agravante de que o Peixe decidiu não poupar jogadores nestes jogos. Por sair vivo, leiam não ter sido rebaixado no Paulistão e ainda estar na briga pela próxima fase da Libertadores. Mas é sempre bom lembrar que uma série semelhante custou o pedido de demissão de Ariel Holan.

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Outro ponto importante: o calendário está tão insano que a eliminação na primeira fase do Paulistão foi comemorada por muitos santistas (lista em que eu me encontro), pois pelo menos agora o Santos terá um pouco de tempo para treinar para a Libertadores e o início do Brasileirão.

Até o Palmeiras, atual campeão da Libertadores e da Copa do Brasil, foi alvo de muros pichados como protesto dos torcedores após as perdas dos títulos da Supercopa do Brasil e da Recopa. A tática de usar os reservas no Paulistão quase custou a eliminação precoce do Verdão na primeira fase, e fez alguns colegas da imprensa cravarem que a estratégia havia fracassado. Curioso em saber qual será a opinião dos mesmos se o Alviverde for campeão paulista mais uma vez…

O único entre os grandes paulistas que até agora passou ileso pela gangorra de resultados causada pelo calendário insano foi o São Paulo. Mas o Tricolor adotou uma estratégia fora do usual (e ao meu ver, acertada) de poupar na Libertadores para jogar as quartas do Paulistão. E se o time for eliminado? O bom trabalho do Crespo passará a ser questionado? De nada valerá a sequência de DOZE jogos sem perder na temporada?

Pelo jeito, no final da temporada 2021, todos nós teremos que passar por uma sessão intensa de análise…com um (a) terapeuta!

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Comandar um clube no Brasil virou uma verdadeira roleta russa para os técnicos estrangeiros. Você nunca sabe de onde vai vir a bala que vai decretar a interrupção do seu trabalho.

Abel Ferreira, Hernan Crespo, Ariel Holán…cada um, da sua maneira, descobriu (ou vai descobrir) o quanto é aleatório lidar com o comando técnico em um país que tem um calendário insano ou desconhecido – escrevo estas linhas às 19h26 de uma sexta-feira, sendo que Corinthians e São Paulo irão se enfrentar no domingo ainda sem saber o horário da partida (atualização: jogo será às 22h15).

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Falando sobre a situação dos treinadores em si. Abel Ferreira teve um início meteórico no Palmeiras e já está marcado na história por ter conquistado a “obsessão” Libertadores e a Copa do Brasil no mesmo ano. Mas passou a ser questionado por perder nos pênaltis a Supercopa do Brasil e a Recopa Sul-Americana (!!!), e deve sofrer ainda mais pressão com a iminente eliminação do Paulistão – ainda que esteja fazendo uma campanha irrepreensível na Libertadores 2021.

Tenho certeza que se eu comentasse para um amigo estrangeiro, que não acompanha o futebol brasileiro, que um time campeão da Libertadores teve os muros pichados dois meses depois, ele diria, no mínimo, que estamos malucos – no que estaria coberto de razão.

O caso de Ariel Holan, a meu ver, é emblemático para ilustrar como funciona a engrenagem do futebol brasileiro. Ele chegou com um contrato de três anos para comandar o Santos vice-campeão da Libertadores, mas sem jogadores importantes daquela conquista (Lucas Veríssimo e Diego Pituca).

No meio do caminho, Holan se viu numa sequência de quatro jogos em sete dias contra adversários da importância de Corinthians e Boca Juniors. Para piorar, o Santos teve lesões importantes como a de Sandry, jogadores fora de ritmo como Marinho e Kaio Jorge e a venda de Soteldo para a MLS. Mesmo assim, alguns torcedores soltaram rojões na frente da sua casa para intimidá-lo. Resultado: acabou pedindo o boné.

Hernan Crespo, por sua vez, enfrenta águas calmas. Engatou uma sequência de oito vitórias seguidas, mesmo com calendário insano, e conta com o apoio da torcida e uma parte considerável da mídia esportiva. Mas quanto tempo vai durar esta lua de mel se ela não for traduzida em títulos? Não duvido que uma derrota contra o Corinthians, que não mudaria em nada na vida do São Paulo, já não seria suficiente para trazer a desconfiança de volta.

Com raríssimas exceções, trazer treinador estrangeiro significa (ria) ter paciência. Futebol não é uma máquina de refrigerante que você coloca moeda nela e tira a sua Coca-Cola na hora. Futebol exige um tempo para que o trabalho surta efeito. Quando se trata de um técnico de fora, ainda existe o período de adaptação a um novo país. Mas o futebol brasileiro não tolera nada disso. Ou ganha, ou muda.

Quem será o próximo a se arriscar nesta roleta russa?

Dinheiro não pode subverter a lógica do futebol

Fracassou (ao menos por enquanto) a ideia dos ditos superclubes da Europa de criar uma Superliga, competição que seria organizada à revelia da Uefa e da Fifa. Foi uma bomba que caiu sobre o mundo do futebol e que teve dois dias de duração até ser contida. Mas, na visão do autor destas linhas, já deixou uma lição: o dinheiro não pode subverter a lógica do futebol.

O que quero dizer com isso? Que o objetivo principal destes 12 clubes (Milan, Arsenal, Atlético de Madrid, Chelsea, Barcelona, Inter de Milão, Juventus, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Real Madrid e Tottenham), que é gerar mais dinheiro com os direitos de transmissão de um campeonato deste tamanho, pode ser até válido, mas despreza um valor fundamental do esporte: a competição que ainda premia o mérito.

Tem outra coisa: a Superliga parte de um pressuposto muito errado. O que garante que estes são os 12 maiores clubes do mundo? Dinheiro? Só se for. Títulos? Há quanto tempo Tottenham não ganha um título relevante? Quantas Champions League foram conquistadas pelo Arsenal?

Outra questão: os mentores da Superliga tiveram, a meu ver, uma postura muito atropelada em relação ao ‘golpe’ que eles tentaram dar na Uefa e na Fifa. Tentaram, na famosa canetada, empurrar uma decisão sem qualquer tipo de diálogo com alguns players importantíssimos do futebol: os jogadores, treinadores e os torcedores.

Não foi à toa que a comunidade do futebol reagiu de forma rápida (e bem negativa). Vozes importantes do futebol protestaram, como Marcelo Bielsa, Jurgen Klopp e Pep Guardiola. Craques da bola, como Kevin De Bruyne, e ex-jogadores relevantes, como Gary Neville, foram vozes ativas no combate a esta iniciativa. A Heineken, patrocinadora oficial da Champions, se posicionou de forma dura contra a Superliga.

Os torcedores também viram neste episódio como uma oportunidade de se manifestarem de forma contundente por mudanças no futebol. Os fãs do Chelsea foram para a rua protestar na última terça. Petr Cech, ex-goleiro e atual diretor do Chelsea, precisou descer do veículo para acalmá-los. Até torcedores de rivais históricos como Manchester United e Liverpool se uniram na causa – o que não deixa de ser um feito da Superliga.

O que os jovens querem?

Presidente da Superliga europeia e do Real Madrid, Florentino Perez usou uma justificativa bem equivocada para referendar a nova competição: “Os jovens já não têm interesse por futebol. Por que não? Porque existem muitos jogos de baixa qualidade e não lhes interessa, têm outras plataformas para se distraírem”, disse o mandatário, para depois complementar com algo que merece uma reflexão maior.

“O futebol tem que evoluir, como empresas, pessoas, mentalidades. As redes mudaram a forma como se comportam e o futebol tem que mudar e se adaptar aos tempos em que vivemos. O futebol estava perdendo o interesse, o público está diminuindo”.

Sim, as redes mudaram a forma como os fãs se comportam. Sim, o e-sports e os games como um todo são adversários cada vez mais forte do futebol para prender a atenção dos jovens. Mas não é criando uma competição em que não se premia o mérito que vai resolver este problema. Não é banalizando os superclássicos regionais que vai atrair um interesse maior desta faixa etária. Se fosse, todo Real Madrid x Liverpool na fase de grupos da Champions League daria uma audiência acima da média…

A nova geração quer experiência aliada ao futebol. Quer receber um autógrafo personalizado em casa do Lionel Messi só por ter comprado o pacote para ver Champions League em casa. Quer poder acompanhar Barcelona x Milan jogando seu game favorito na mesma plataforma, ou podendo convidar os amigos para uma Watch Party. Quer torcer para um time e saber que ele foi construindo degrau a degrau o seu mérito para ser campeão – assim como ele aprendeu que seu pai torcia. A guerra entre os clubes e Fifa/Uefa está longe de acabar. Mas o dinheiro que está em jogo não pode subverter esta lógica do prazer proporcionado pelo futebol.

Vale ler também sobre a Superliga:

Bruno Maia: Polêmica da Superliga nos questiona se amamos um esporte obsoleto

Carlos Eduardo Mansur: Na Superliga elitizada, o que fazer quando um superclube não parecer mais tão super?

Mário Marra: Os torcedores do Liverpool estão envergonhados

Financial Times (tradução na Folha): Derrota da Superliga foi mais choque de cartéis do que luta de Davi versus Golias

Cuidem do produto futebol

Quando o produto futebol vai ser melhor gerido no Brasil? Quando as federações e clubes vão tratar o esporte como um espetáculo que precisa ser proporcionado da melhor maneira possível para quem assiste? Será que nutrir esse tipo de esperança me faz ser uma pessoa que acredita em conto de fadas?

Quando olho para o futebol brasileiro, tenho dois sentimentos díspares: ao mesmo tempo que espetáculos como o do último domingo entre Flamengo e Palmeiras me enchem os olhos pela qualidade demonstrada, vejo a Federação Paulista fazendo de tudo para enfiar ‘goela abaixo’ a volta do Estadual mesmo com mais de três mil mortes por covid por dia no Brasil. 

Depois que o Governo Doria e o Ministério Público enfim cederam, a mesma Federação não pensou duas vezes em obrigar clubes como o São Paulo a uma maratona de quatro jogos em sete dias. Para quem pensa que isso é um ‘privilégio’ do nosso Estado, na temporada passada o Palmeiras passou por uma maratona por ter montado um time em condições de disputar todas as competições (no caso, Paulistão, Libertadores, Copa do Brasil). 

Como cobrar desempenho dos jogadores neste contexto? Como esperar um nível técnico alto em toda partida? O Brasil é o único país dos grandes centros do futebol que parece que pune quem monta time bom com maratona de jogos. Acha que estou brincando? Então veja o que o vice-presidente da CBF, Francisco Noveletto, falou sobre o Palmeiras, vencedor da Libertadores 2020.

“Quem mandou ele ganhar tudo? Vê se o presidente do Palmeiras ou algum dirigente abre mão. Ele não é obrigado a jogar. Ele quer ganhar. Ele pode abrir mão. Ele não é obrigado. Mas, não. Ele precisa fazer caixa, ganhar prêmio da CBF, ganhar prêmio de quem patrocina o campeonato. A CBF vai pagar 60 milhões, 90 para a Copa do Brasil. Libertadores, 20 milhões de dólares. É tudo assim. Então, eles não são obrigados. Quem mandou ele ganhar?  Vamos ganhar só metade para não ter esse problema”.

Quando falo sobre o desprezo na gestão do produto futebol, falo sobre os mais variados aspectos. Não se discute uma adequação do calendário. A consequência disso é a banalização dos clássicos e dos jogos na primeira fase dos Estaduais. Quem aguenta ver tanta partida desimportante sempre?

Sobre os jogadores…alguém parece preocupado com o risco de contágio dos atletas? O risco dos membros da delegação? Digo mais…nós da imprensa esportiva falhamos ao não tratar as consequências físicas/psicológicas da covid-19 nos atletas que já contraíram a doença. Simplesmente o tratamos como máquinas. Recuperado da covid? Bora cobrar o mesmo tipo de desempenho que cobrávamos antes.

Ainda sobre as competições: que tipo de ações extra-campo estão sendo feitas para os torcedores que não podem mais ver o seu clube no estádio? Outro dia estava conferindo a temporada 3 da série Drive to Survive, do Netflix, e me surpreendi com uma iniciativa simples, mas que acredito ser efetiva para a relação entre ídolos e fãs: quando os pilotos entravam no autódromo, eles eram obrigados a parar em um totem para conversar virtualmente com fãs pré-selecionados pela organização. Na temporada passada da NBA, aparecia uma imagem virtual dos torcedores acompanhando de casa em tempo real a partida. Simples? Talvez. Mas muito melhor/mais sofisticado do que os bonecos com as fotos dos fãs que os clubes brasileiros proporcionaram para quem comprasse um ingresso virtual.

Na última sexta (9), o meu colega Rodrigo Mattos informou em sua coluna no UOL que os grandes clubes brasileiros perderam 270 mil sócios-torcedores desde o início da pandemia do coronavirus. Coincidência? Pra mim, é um sintoma claro de que falta ideia criativa para reter o fã de futebol.

Menos jogos. Mais planejamento. Mais respeito aos atletas. Mais carinho com o torcedor. Mais criatividade para reter o fã do futebol brasileiro. 

Cuidem do produto futebol brasileiro. Não é pedir muito.

O Brasil precisa acertar as contas com o bolsonarismo

Ameaça de golpe, tensão no ar, democracia testada dia sim, dia também…não bastasse sermos assolados pela pandemia do coronavírus, amplificada por uma falta de comando do Governo Federal, o bolsonarismo nos impõe viver também com o medo de revivermos a Ditadura Militar.

Bolsonaro pode até ser derrotado nas urnas em 2022, mas o bolsonarismo vai existir e ter certa relevância por muito tempo. Não só como movimento político, mas também como social. E o Brasil precisa acertar as contas com ele.

A eleição de Jair Messias Bolsonaro em 2018 legitimou o ignorante a ter orgulho de ser ignorante, o xenófobo a ter orgulho de ser xenófobo, o machista a ter orgulho de ser machista. Em resumo: todas aquelas pessoas que ficaram por muito tempo “no seu canto” por receio do surrado conceito do “politicamente correto”, agora saíram da toca e manifestam o seu pior lado sem nenhum medo de represália.

Como bem observou o amigo Allan Simon, o governo Bolsonaro também virou abrigo para os ressentidos, pois “conseguiu capturar todos os que fracassaram de alguma forma em suas áreas e passaram a ter ódio do sistema como um todo”.

E por que o Brasil precisa acertar as contas com esse seu lado? Oras, pois o bolsonarismo escancara a falácia de que somos um país de gente “humilde e hospitaleira”, um povo sempre “alegre e festeiro”, entre outros rótulos que gostamos de colocar em nós mesmos.

Quer fazer um teste? Digite “Brasil país que mais mata” no google. Fiz isso e colhi alguns resultados:

“O Brasil é o País que mais mata por arma de fogo no mundo”

Feminicídio – Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo

Pelo 12º ano consecutivo, Brasil é país que mais mata transexuais no mundo

Relatório mostra que o Brasil é o terceiro país que mais mata ambientalistas

Este é um país hospitaleiro? País que trata bem o seu povo e os turistas? Então…

Nestes pouco mais de dois anos como presidente do Brasil, Bolsonaro mostrou por A + B + C + D que é um desastre na função. Não trabalha, não comanda, não escala time competente. Seus subordinados, aliás, são especialistas em destruição. Estão destruindo o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Educação (só pra ficar em três exemplos).

Mas Bolsonaro foi até agora muito eficiente em uma tarefa: a de fidelizar o seu público. Hoje o presidente tem pelo menos 20% do Brasil do seu lado, o que lhe deixaria muito perto de um segundo turno (isso se tivermos democracia até lá). Pra quem ficou três décadas como Deputado Federal e não fez NADA de relevante politicamente tanto na Câmara quanto na Presidência, não deixa de ser um feito!

Qual é a saída para escaparmos deste buraco? Acho que só a educação salva. Um país mais instruídos forma pessoas com consciência cidadã e preparadas para, por exemplo, exercer melhor o seu direito de voto.

Mas independente disto, acredito que o Brasil precisa acertar suas contas com a elite do atraso, que ajuda a perpetuar o país desigual que somos e foi uma das principais fiadoras da chegada do bolsonarismo ao poder “para acabar com a corrupção do PT” (ps: que bom que a corrupção acabou agora, não é mesmo?).

Hoje vemos muitos dizendo publicamente que estão arrependidos em ter votado em Jair Bolsonaro em 2018. Mas no segundo turno de 2022, num hipotético Bolsonaro x Lula, quantos destes não repetiriam o voto no atual presidente?

Não sejamos hipócritas: pra elite do atraso, o que importa é ver a esquerda longe do poder. Mesmo que pra isso seja necessário mais quatro anos de Bolsonaro.

E é com esta elite do atraso, boa parte dela alinhada com os valores do bolsonarismo, que o Brasil precisa acertar suas contas.

O importante é a vaga!

Foi duro, difícil, suado, mas a vaga veio. O Santos empatou com o Deportivo Lara por 1 a 1 e avançou para a terceira fase da Libertadores por ter vencido por 2 a 1 o primeiro jogo na Vila Belmiro.

O título deste post, O importante é a vaga, pode passar a impressão errada de que o autor destas linhas entrou para o time dos resultadistas de plantão. O que estou tentando é valorizar o contexto: é uma equipe em formação, repleta de atletas jovens, com técnico novo, inúmeros desfalques e que ainda foi acometido por um problema estomacal de última hora pouco antes da bola rolar.

O jogo em si não foi bom. O Santos teve dificuldades de sair da forte marcação do Deportivo Lara, que mais uma vez jogou com cinco defensores. Teve mais posse (66%), conseguiu chutar mais no gol (3 a 2), mas faltou ser mais assertivo na hora de concluir.

O ponto que merece atenção especial, como o próprio técnico Ariel Holan reconheceu depois da partida, é a falha de marcação nas bolas paradas, que voltou a acontecer no duelo da Venezuela assim como havia ocorrido na Vila. Ciente da deficiência do Santos, o Deportivo Lara só ameaçou desta forma, e ficou perto de levar a partida para a disputa de pênaltis.

O registro positivo fica para o primeiro gol de falta de Soteldo com a camisa do Santos (um golaço). O venezuelano foi premiado pelos treinos diários para se aperfeiçoar neste quesito. Em duelos equilibrados como esse, a bola parada se torna um diferencial que pode ajudar muito o Peixe na temporada.

O empate de ontem rendeu R$ 3 milhões nos cofres combalidos do Santos e garantiu o clube na disputa de uma competição continental deste ano – mesmo se for eliminado por San Lorenzo ou Universidad de Chile na próxima fase, o Peixe vai disputar a Copa Sul-Americana. E o melhor de tudo: deu fôlego para Ariel Holan seguir o seu trabalho de montagem da equipe longe das cornetas da opinião pública.

Até agora, Holan tem quatro jogos no comando do Santos: duas vitórias, um empate e uma difícil derrota para o São Paulo no clássico. Mas o que vale é que, mesmo com pouco tempo de trabalho, já existe uma ideia clara em campo do que o treinador pensa, e muito espaço para os jovens se desenvolverem.

Que o torcedor tenha paciência com as oscilações, e entenda que é um trabalho que vai render frutos a médio prazo.

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