A roleta russa do treinador estrangeiro no Brasil

Comandar um clube no Brasil virou uma verdadeira roleta russa para os técnicos estrangeiros. Você nunca sabe de onde vai vir a bala que vai decretar a interrupção do seu trabalho.

Abel Ferreira, Hernan Crespo, Ariel Holán…cada um, da sua maneira, descobriu (ou vai descobrir) o quanto é aleatório lidar com o comando técnico em um país que tem um calendário insano ou desconhecido – escrevo estas linhas às 19h26 de uma sexta-feira, sendo que Corinthians e São Paulo irão se enfrentar no domingo ainda sem saber o horário da partida (atualização: jogo será às 22h15).

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Falando sobre a situação dos treinadores em si. Abel Ferreira teve um início meteórico no Palmeiras e já está marcado na história por ter conquistado a “obsessão” Libertadores e a Copa do Brasil no mesmo ano. Mas passou a ser questionado por perder nos pênaltis a Supercopa do Brasil e a Recopa Sul-Americana (!!!), e deve sofrer ainda mais pressão com a iminente eliminação do Paulistão – ainda que esteja fazendo uma campanha irrepreensível na Libertadores 2021.

Tenho certeza que se eu comentasse para um amigo estrangeiro, que não acompanha o futebol brasileiro, que um time campeão da Libertadores teve os muros pichados dois meses depois, ele diria, no mínimo, que estamos malucos – no que estaria coberto de razão.

O caso de Ariel Holan, a meu ver, é emblemático para ilustrar como funciona a engrenagem do futebol brasileiro. Ele chegou com um contrato de três anos para comandar o Santos vice-campeão da Libertadores, mas sem jogadores importantes daquela conquista (Lucas Veríssimo e Diego Pituca).

No meio do caminho, Holan se viu numa sequência de quatro jogos em sete dias contra adversários da importância de Corinthians e Boca Juniors. Para piorar, o Santos teve lesões importantes como a de Sandry, jogadores fora de ritmo como Marinho e Kaio Jorge e a venda de Soteldo para a MLS. Mesmo assim, alguns torcedores soltaram rojões na frente da sua casa para intimidá-lo. Resultado: acabou pedindo o boné.

Hernan Crespo, por sua vez, enfrenta águas calmas. Engatou uma sequência de oito vitórias seguidas, mesmo com calendário insano, e conta com o apoio da torcida e uma parte considerável da mídia esportiva. Mas quanto tempo vai durar esta lua de mel se ela não for traduzida em títulos? Não duvido que uma derrota contra o Corinthians, que não mudaria em nada na vida do São Paulo, já não seria suficiente para trazer a desconfiança de volta.

Com raríssimas exceções, trazer treinador estrangeiro significa (ria) ter paciência. Futebol não é uma máquina de refrigerante que você coloca moeda nela e tira a sua Coca-Cola na hora. Futebol exige um tempo para que o trabalho surta efeito. Quando se trata de um técnico de fora, ainda existe o período de adaptação a um novo país. Mas o futebol brasileiro não tolera nada disso. Ou ganha, ou muda.

Quem será o próximo a se arriscar nesta roleta russa?

2 comentários em “A roleta russa do treinador estrangeiro no Brasil

  1. Perfeito. Sem uma pré-temporada, a diretoria errou ao trazer técnico estrangeiro. O sp estava certo, montado pelo Diniz. O Santos, além de mais jogos, ainda sofreu com saída de jogadores contundidos. Em nenhum momento aplaudi a contratação desse técnico.

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