Pelé ‘humano’ é o grande legado do documentário

Assisti ao documentário “Pelé” no Netflix e fiquei maravilhado. Não me lembro de ter visto o Rei do Futebol tão ‘humano’. Humano, entre aspas, pois afinal de contas todos somos humanos, não é mesmo? Mas neste filme Edson Arantes do Nascimento se mostrou frágil, vulnerável, hesitante, como poucas vezes apareceu de forma pública.

Logo no início do documentário, Pelé surge em uma sala vazia caminhando com a ajuda de um andador. O Rei do futebol senta em uma cadeira e joga o andador com força para alguém que não aparece na imagem poder pegar.

Foi uma imagem que me chamou muito a atenção – até porque Pelé não tem o costume de aparecer desta forma publicamente. O único momento que me vem à mente em que ele apareceu fragilizado foi em 2017, durante o sorteio dos grupos da Copa do Mundo da Rússia, em que ele posou para imagens de cadeira de rodas.

Outro acerto do documentário é abordar de forma incisiva como o fenômeno Pelé foi explorado pela Ditadura Militar. Pelé hesita ao falar sobre o tema, mas admite o desconforto, principalmente pelo fato de que foi obrigado pela era Médici a disputar a Copa do Mundo de 1970.

O documentário entrevista várias personalidades contemporâneas a Pelé, desde jornalistas como Juca Kfouri e José Trajano a políticos de diferentes espectros ideológicos como Fernando Henrique Cardoso, Delfim Netto e Benedita da Silva e até o cantor Gilberto Gil. 

Destes, o depoimento que mais marcante foi o do Juca, que falou algo que me fez pensar. “Muitos comparam o Pelé ao Muhammad Ali (voz ativa a favor dos direitos humanos nos Estados Unidos). O Ali sabia que nunca iriam atentar contra a sua vida. O Pelé não tinha essa certeza de que, se protestasse contra a Ditadura, não seria morto por ela”.

Pelé sempre se posicionou como alguém que tinha uma ascendência ‘apenas’ restrita ao futebol. Lamento que ele não tenha percebido o seu tamanho e o quanto seria importante para o Brasil que ele tivesse sido mais incisivo contra a Ditadura Militar. Lamento, mas não condeno, pois só quem viveu aquele momento é que tinha uma ideia real dos riscos de tomar uma atitude como essa.

Mas deixo aqui um questionamento: que base educacional Pelé tinha para formar esta consciência política e cidadã? Sei que ele se formou em Educação Física, mas o fez quando a carreira estava consolidada. 

Meu ponto é um só: desde aquela época até hoje, são pouquíssimos os jogadores de futebol que conseguem completar os estudos. Eles despontam como craques cada vez mais cedo, ficam milionários e não têm tempo/interesse de conciliar o campo com a escola. Resultado: acabam sendo induzidos a viverem alheios aos problemas do país/mundo. Como se só o futebol e suas vidas pessoais lhes importasse.

Leia também no renanprates.com:

Quem sobe e desce no Santos com Ariel Holan?

10 perguntas para Cuca (e um agradecimento)

Claro que estou generalizando, e toda generalização induz ao erro. Mas por que não pensamos em políticas públicas/esportivas que permitam aos nossos jovens futebolistas conciliarem esporte com a escola? Com a palavra, políticos e gestores do futebol… 

O único ponto do documentário que eu lamentei foi o pouco tempo da cena do churrasco entre Pelé, Mengálvio, Lima, Pepe e Dorval, na casa do Rei do futebol no Guarujá. Cinco dos maiores jogadores do mundo na década de 60 conversando de forma nostálgica sobre o passado e o que fizeram naquele timaço do Santos. Pelé ainda brinca no fim: “Não comam muito que tem jogo amanhã”.

É por essas cenas tão simbólicas, que renderiam um filme por si só, que o futebol é tão apaixonante. 

Outros textos sobre o documentário do Pelé que eu recomendo bastante:

Paulo Júnior:
Pelé reconhece o mito, mas é na política que se interessa pelo homem

O Gabriel Carneiro produziu no UOL Esporte um bom material sobre o documentário:

“Não posso mudar a lei”, diz Pelé sobre crítica por posicionamento político

Netflix lança trailer de documentário que promete novo olhar sobre Pelé

LEIA TAMBÉM:

Homenagem a meu pai que escrevi no UOL Esporte:

O dia em que meu pai marcou o Pelé e foi parar no cinema

2 comentários em “Pelé ‘humano’ é o grande legado do documentário

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